sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Liberdade e Verdade



Uma grande parcela dos presidiários, que ficam encarcerados por longos anos, apesar do grande desejo de liberdade, são acometidos de um mal chamado de “Síndrome do medo da liberdade”. Trata-se do pavor, às vezes irracional, de sair da “segurança” da cela. Alguns já estão tão acostumados ao convívio social dos amigos presidiários, das convenções, regras e códigos de conduta da prisão a que foram submetidos que a liberdade passa a se tornar uma ameaça ao invés de um prêmio, gerando transtornos emocionais sérios ao se aproximar o dia de sair da prisão. É o medo de não ser aceito, de não encontrar abrigo, de cometer novamente algum tipo de crime, de morrer, etc.
O que acontece é que nem sempre a prisão é física. As cadeias podem ser de ordem emocional e até mesmo espiritual. São presos em si mesmos aqueles que tem medo de viver o novo, arriscar-se, experimentar a vida e se fazer percebido não pelos outros, mas por si mesmo, por sua própria vida, vivida em abundante liberdade. Projetos são travados, sonhos são interrompidos, decisões são adiadas porque, na maioria das vezes, temos medo de tomar decisões para sermos livres.
Algumas pessoas já sofreram tanto, estão a tanto tempo acorrentadas aos medos das traições do passado, das mágoas e das feridas que aqueles ao seu redor lhe causaram, que elas acabam construindo e somatizando muros emocionais e existenciais, prisões e grades para elas mesmas, para que ninguém de fora consiga penetrar suas masmorras de defesas e lhe causar mais dor. Tais pessoas colocam seus corações em verdadeiras gaiolas e não conseguem ter coragem de tirá-lo de lá.
Estas prisões tem nome e são geralmente conhecidas pela sensação de que não se conseguirá ser plenamente feliz na liberdade da vida. Algumas pessoas vivem, de fato, presas ao medo de ser feliz, pois acham que experimentar felicidade é arriscado demais e podem acabar sofrendo alguma outra frustração. Acabam não se entregando inteiramente aos relacionamentos e compromissos por medo de abrirem a guarda e serem machucados e abandonados novamente. Entretanto, foi para a liberdade que Cristo nos chamou, a começar pela liberdade que vem pela verdade. Sim a verdade liberta! Mas quem tem medo da verdade não conseguirá ser livre de verdade.
A verdade é o caminho para a liberdade na vida e pela vida. Quem diz a verdade e vive por ela aprende a não temer mais nada. Quem perde o medo das conseqüências da verdade terá a liberdade de olhar nos olhos de qualquer um na existência e ter plena consciência de fazer a escolha correta sempre.
Não há como a vida em liberdade não ser um risco, somos alvo das coisas boas e das ruins também. Nossa libertação vem daquele que não conhece cadeia, aqui ou no por vir, que impeça Seu poder de libertar a quem quiser. Ele é aquele que tem o nome pronunciável até mesmo pelos mudos, Sua voz pode ser ouvida por surdos e sua glória percebida por quem não possui olhos neste mundo. Antes que houvesse dia ou trevas, antes da própria existência, antes das coisas que não eram virem a existir, Ele é o que sempre foi e sempre será. Seu poder está para além de tudo, seus dias são incontáveis e inumeráveis. Defini-lo é tolice, segurá-lo loucura, contê-lo impossível. Dar-lhe um só nome é reduzi-lo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Solidariedade...

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Nosso tempo é marcado por ausência dessa virtude, solidariedade. Podemos falar sobre solidariedade do ponto de vista conceitual (o que não é meu objetivo aqui) ou de uma forma mais ampla, abrangente e atual, que é minha proposta.
Identifiquei a palavra dentro da história como sendo provinda do século XX, quando ela foi raiz de um movimento que criou um partido político, e que esse, deu a grande reviravolta na história Polonesa do final do século. O partido se chamava justamente “solidariedade”. Gostei também da definição do Aurélio – “Solidariedade é sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses e as responsabilidades de um grupo social, de uma nação, ou da própria humanidade”.Onde vemos esse compromisso no nosso tempo? Aristóteles dizia que todo homem é um ser político, da pólis. Assim, a cidadania seria essa solidariedade, seria isso que une os cidadãos ao destino da comunidade, do grupo, da nação, do mundo. Cidadania não é reivindicação de direitos, mas acima de tudo, aceitar os deveres. Por exemplo, a falta de água é um dos problemas mais terríveis que a humanidade enfrentará. É possível conscientizar as pessoas de pouparem água? Teilhard de Chardin já falava em amor efetivo e amor afetivo. O afetivo é a saudade, o gostar, a paixão. Mas o efetivo é fazer a feira pro outro quando ele não pode, ir visitá-lo no hospital, o “beaba” da caridade cristã que poucos fazem. O hospital é um lugar amedrontador, as pessoas não vão por medo mesmo. Depois ainda ligam e dizem: “puxa, eu queria ter ido te visitar, mas não tive tempo”. Está comprovado que os regimes capitalistas, as estatais, o socialismo não conseguiram resolver o problema da justiça social. As instituições de cooperativismo (solidariedade na economia do país) se tornaram um antro de corrupção e roubalheira. Muitas são fachadas para empresas que não querem ter responsabilidades fiscais. A tecnologia faz tudo para isolar. As pessoas andam na rua com um diskman pra não ouvir as pessoas. Andam de diskman pra não ter que cumprimentar alguém. Muita gente não conhece nem o próprio vizinho de porta. O dia inteiro a gente ouve que temos que tomar cuidado, tomar cuidado, tomar cuidado e esquecer do outro, esquecer do outro, esquecer do outro. Nossa sociedade consumista, hedonista e narcista é essa que estou falando aqui. É claro que ainda existem movimentos de solidariedade que infelizmente, atingem a poucos. Estão incrustados a pequenos grupos. Os movimentos solidários atingem a poucos. Por isso que talvez, a solidariedade não seja uma virtude do nosso tempo. Talvez ela não exista mais em nossos dias. Confúcio dizia que: “só homens virtuosos são competentes para amar”. A solidariedade talvez seja maior manifestação de amor. A frase não é sobre solidariedade, mas sobre virtudes, de modo geral. A ira, por exemplo, tem suas raízes no desamor, a solidariedade no amor ao próximo, o que me parece raro hoje em dia.  Podemos pensar que a alternativa seja abandonar a idéia. Mas solidariedade não é uma opção, é uma necessidade. Nenhum país do mundo hoje pode se dar ao luxo de se isolar da globalização. Precisamos da força da colaboração. Muito mais do que a definição do Aurélio, solidariedade é disponibilidade para o outro, a comunhão na luta pelos interesses do outro, o empenho no bem estar do próximo e a compreensão dos diferentes. Solidariedade é cooperação, corporativismo, é ser voluntário. Por isso, eu tenho a sorte de ser otimista. Apesar de tudo, tenho razões para ser solidário e crer que a solidariedade não acabou. Primeiro porque vejo solidariedade em pequenos grupos, muitos dos quais excluídos da sociedade. Os grupos pequenos de pessoas com os mesmos problemas em geral são solidários uns com os outros porque sabem o que o outro passa na própria pele. Eu vejo uma disponibilidade muito grande entre eles de se ajudarem uns aos outros, se apoiando mutuamente. Essa solidariedade de pequenos grupos é fruto de amizade, de companheirismo entre pessoas que tem problemas comuns muito fortes. Essa amizade surge naturalmente. Segundo porque vejo que muitos homens historicamente se empenharam ao longo dos anos, muitas vezes com enormes sacrifícios pessoais na luta pelos direitos dos cidadãos e num caso mais geral, nos interesses da própria humanidade. Albert Eistein, Niels Bohr e muitos outros se empenharam de forma decisiva a favor do uso pacifico da energia nuclear, do desarmamento das grandes potências mundiais e da paz entre as nações. A participação política de militantes como Martin Luther King, ou o físico Andrei Sahkarov que pagou com a própria liberdade e da sua família pela luta dos direitos do povo soviético à liberdade. Muita gente hoje não se entrega, não para e isso muitas vezes custa caro. Muitos dos que fazem campanha contra a guerra do golfo nos Estados Unidos tem o passaporte confiscado. Terceiro porque eu acredito que cada ser humano deve estar a serviço da humanidade. Na verdade, o papel mais fundamental do ser humano é servir. Essa é a afirmação base da responsabilidade social. É muitas vezes mais cômodo e confortante para nossa consciência acharmos que só o nosso trabalho se justifica pelos benefícios que nos traz. Mas não nos preocupamos em benefícios que podemos levar à humanidade. Por isso, qualquer ação solidária deve ser incentivada, aplaudida e admirada. Há muitas coisas que podemos fazer para melhorar um pouco a vida das pessoas que nos cercam. Um exemplo simples é o chamado trote solidário, os calouros esse ano passaram pelo trote de ensinar jovens carentes, levantar dinheiro nos faróis para instituições de ajuda, dar aulas aos domingos de manhã em comunidades carentes. Esse movimento voluntário de estudantes e professores é solidariedade. Eles perderam seu domingo de manhã, o único dia para dormir um pouco mais, passear, enfim, foi uma manhã perdida, mas com um ganho, um valor, que é ajudar pessoas. Isso não custa nada. É só uma questão de vontade. E mais, eu acho que nós que trabalhamos, temos emprego digno, não podemos, não temos o direito de virar as costas para as questões sociais, principalmente no Brasil, onde fica evidente que apenas uma elite privilegiada tem direito e acesso a uma vida digna. Por último, seria de se esperar que com o desenvolvimento da tecnologia, da ciência em todas as suas manifestações, se desenvolvesse também a compreensão entre os seres humanos. Entretanto, a realidade tem nos mostrado que essa esperança pode não ser mais do que uma utopia, já que muitas descobertas científicas têm sido feitas, mas a insensibilidade, a destruição, o desprezo ao próximo, a miséria e a fome ainda crescem e tendem a piorar ainda mais. Crianças morrem todos os dias nas tribos indígenas de fome e desnutrição. Meninos e meninas menores carentes se prostituem nas ruas, debaixo dos nossos olhos. Guerras matam milhões de inocentes. Na África 64,4 da população vive em pobreza absoluta. Em Moçambique 100 mil pessoas morrem de AIDS por ano e estima-se que 1,5 milhões de pessoas vivam com o vírus. São 273 mil órfãos no país. E ninguém faz nada. Mas já que estou escrevendo sobre solidariedade e sou otimista por natureza, isso não deve nos desanimar, pois vários exemplos do passado e do presente nos mostram que é possível que o conhecimento traga uma melhor compreensão não só da natureza dos fatos, mas acima de tudo, do próprio ser humano.
Encerro com uma citação de La Bruyére, escritor francês em seu livro “Os caracteres”, onde ele diz o seguinte: “Se é comum sermos vivamente tocados pelas coisas ruins, por que o somos tão pouco pelas virtudes?”
Infelizmente esse artigo que deveria ser um caminho para obtermos respostas, acabou por trazer novas questões.
A resposta está em você agora.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Big Brother...

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“A ignorância é a mãe de todos os males”.
François Rabelais (1483-1553) Escritor e Padre Francês)

A antropóloga Lilian Schwacz escreveu um ótimo livro chamado “O império das festas e as festas do império”. Nesse livro ela faz uma descrição das procissões e festas que Dom Pedro II e a corte realizavam no Brasil colônia. A descrição que ela faz é interessante, mostrando que essas festas beiravam o ridículo. Ela observou que a partir daí a cultura brasileira é de pão e circo. O Brasil lembra a Roma que tinha seus espetáculos de gladiadores que se matavam na arena para o delírio do povo. Havia também a queima de hereges em praça pública. Hoje a versão pós moderna disso são os chamados “Reality Shows”.
De início é bom lembrar que o Big Brother, não é uma “tara” brasileira, sintoma do nosso subdesenvolvimento cultural. É sem dúvida, mais uma peça cultural da globalização, além de uma “tara” da natureza humana em geral. É uma idéia originalmente Holandesa, que se espalhou no mundo como uma praga. Aqui no Brasil, depois de uma briga entre Globo e SBT pelos direitos autorais, o programa alastrou-se chegando atualmente a sua décima edição.  Todos querem olhar pelo buraco da fechadura e dar uma “espiadinha”. Entre e “espie” a vontade. São expressões usadas por Pedro Bial apelando para a inerente curiosidade da natureza humana.  
Os denominados reality shows tem sucesso por causa do fascínio que o outro, seja lá quem for, nos provoca. Num psicologismo barato, somos atraídos pelos erros dos outros, até porque nos identificamos com eles. Adoramos observar, condenar, julgar, somos extremamente severos com determinados erros dos outros. É a lógica do “quanto pior melhor”. Eles descobriram o mapa da mina: “quanto pior melhor”. Soaria estranho falar em humildade, mansidão, temperança, castidade, fidelidade, afinal o pecado é muito mais atraente e sedutor do que virtude.  O erro atrai e desperta a curiosidade porque revela as dimensões escondidas, as doenças ocultas das pessoas como nós. Rubem Alves diz que todos nós, por amarmos mais os pecados do que as virtudes somos seres que existem em conflito, somos nossos próprios adversários. Dentro de nós existe um ser amordaçado, mascarado, recalcado, proibido de fazer e dizer o que deseja[1].
Em meio a essa situação, o reality show é bom mecanismo de fuga por meio do qual as pessoas podem realizar suas fantasias para tornar o dia a dia menos miserável. Essa espetacularização[2] tem uma natureza mórbida porque revela o que há de pior na natureza de cada ser humano.
Além do mais puro interesse de criar audiência, há os interesses dos fabricantes de móveis, edredons, carros, produtos diversos. O show então se completa. Quem é o beneficiado? Em princípio todos ganham. A rede de TV e os anunciantes que tem o único objetivo de faturar. Ganham também as cobaias (artistas), os anunciantes e a patuléia que assiste. As cobaias (artistas) que se prestam a isso estão querendo uma oportunidade de aparecer. Os famosos cinco minutos de fama. Pelado, vestido, tramando, dando rasteira, dando golpes, traindo, jogando, exibindo nádegas, bíceps, o que seja, o negócio é aparecer. Já a platéia telespectadora fica babando, ensandecida pelo sangue, suor e lágrimas rolando da televisão. E sexo. Porque pimenta nos olhos dos outros é refresco, e dá IBOPE. É juntar a fome com a vontade de comer.
E nós, através da TV, internet, telefone, elegemos quem perde e ganha, quem vive e quem morre. Não precisamos mais matar gladiadores na arena. Somos modernos. Vivemos na era da globalização, da comunicação, da cibernética. Evoluímos. Não precisamos de arenas porque toda a nossa tecnologia está a serviço do golpe, do ciúme, da trama, da rasteira no concorrente, da dissimulação, do falsear, da instrumentalização das amizades e das pessoas.
Estamos no auge da falência da cultura e da educação. Trocamos a família por dezenas de horas de puro deleite de como ser falso, mentiroso, infiel, hipócrita, leviano, canalha, com todos os derivativos da falta de ética e imoralidade estando à mostra.
Como disse um amigo, o verdadeiro significado de BBB é: Bendita Burrice a Brasileira.
Enquanto a sociedade der audiência a esse tipo de patifaria televisiva, a falência da família e dos valores morais e éticos não vão mais retroceder. Será isso é o melhor podemos produzir culturalmente?


[1] ALVES, O que é Religião? 1981, Ars Poética editora, São Paulo, SP
[2] Conceito filosófico relativo a forma de cultura de uma sociedade que sobrevive do espetáculo, principalmente relacionado aos outros seres humanos.