sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ECLESIASTES: O MELHOR CONSELHO DA BÍBLIA



Tenho descoberto Eclesiastes como um livro maravilhoso. Geralmente ele está incluído na Bíblia hebraica como literatura de sabedoria porque seu conteúdo e ensino não se baseiam em alguma revelação divina, mas derivam de uma profunda compreensão de mundo, de realidade, de uma profunda consciência de como a existência humana funciona. O livro se baseia nas observações de um homem enquanto pensa na vida, no sofrimento, na existência em todos os seus aspectos, inclusive a certeza da morte.

É engraçado que Eclesiastes vai contra toda a teologia retributiva da época. Na mensagem dos profetas as pessoas sofrem porque merecem, porque se afastaram de Deus. O justo não pode sofrer porque Deus é justo e isso seria injustiça da parte dele. Bem, em Eclesiastes, pelo princípio da observação, o mal nem sempre é punido e o bem nem sempre é recompensado. Para “o professor” (Qoheleth, titulo do livro em hebraico), a vida parece não fazer sentido e no final, todos, sábios, tolos, justos, injustos, ricos e pobres, morreremos. Esse é o fim da história. Ponto final.

A palavra chave é vaidade. Toda a vida é vaidade. Ela passa rapidamente e se acaba. Hevel, palavra hebraica usada como “vaidade” pode expressar também “vazio”, “absurdo”, “inutilidade”. Hevel dá a idéia de algo efêmero, fugaz. Essa expressão aparece 30 vezes, num livro relativamente curto. Assim, para o professor, tudo é efêmero, tudo vai acabar, aliás, tudo está destinado a acabar, até mesmo nós.

O professor dia que tentou de tudo para achar um sentido para a existência: prazer, grandes projetos construtivos, riquezas (Ecl. 1:16; 2:23). Depois que experimento tudo, viu que nada tinha significado.

No entanto, isso não significa que o nosso professor tenha desistido da vida. Não. Ao contrário, ele achava que desfrutar das coisas mais simples da vida (amor, prazer, amigos, trabalho, seu cônjuge) vem da mão de Deus. (Ecl. 2.24). Para o autor, a nossa vida é só o que temos. Não há vida após morte para os justos e punição para os injustos – a vida é só o que há, portanto devemos vivê-la enquanto a temos.

Você pode pensar que toda essa reflexão realista da existência, do caráter transitório da vida levaria qualquer um a depressão e ao suicídio. Isso não é verdade. No caso do professor, ele quer buscar um sentido mais profundo para a vida, mas o suicídio ou a depressão não são respostas porque isso dá um fim a única coisa boa que realmente temos – a vida. Ele diz que “o melhor é desfrutar da vida que temos” (Ecl. 5.17).

Essa visão não deve nos desesperar, mas nos levar a desfrutar a vida ao máximo, pelo maior tempo que pudermos e de todas as formas possíveis, apreciando os momentos preciosos que podem dar prazer inocente: relacionamentos, amigos, família, amor, amizades, diversão, bebida boa, trabalharmos no que gostamos.

Muitas pessoas acham que sabem exatamente tudo sobre a eternidade. Nosso professor, o homem mais sábio da história não sabia. Pelo contrário, para ele não há vida após a morte, que esta vida é só o que há.

Com relação ao sofrimento, o professor não lida com os tipos de infelicidade que encontramos, como por exemplo, no livro de Jó. Sua preocupação é com a dor da existência, com as crises existenciais que todos nós, em algum tempo da vida enfrentamos simplesmente porque somos seres humanos. No entanto, o sofrimento também é hevel.

Se essa é a visão do homem mais sábio que já existiu, devemos aprender algo com ele. Ele não busca respostas divinas para o sofrimento, insatisfação, crises existenciais. Não. Ele busca desfrutar o que chega a ele como vida, em sua curta estadia na terra.

Honestamente, considero a visão do professor muito interessante. No final, assim como no livro de Jó, vemos que aqui nessa vida não há resposta para o sofrimento. É simplesmente algo que acontece na terra, provocado por circunstâncias que não podemos compreender, O que fazer? Tentar evitar o sofrimento em nós, e aliviar os outros sempre que possível, e seguirmos a vida, desfrutando bem de nosso tempo na terra, vivendo o máximo que pudermos, até chegar o momento natural do nosso fim.

Um comentário:

Anônimo disse...

Mas devemos lembrar também que ao final deste livro "o professor" diz que a máxima é "Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem.Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau."